Existem diferenças entre pichação com “ch” e pixação com “x”
Pichação é uma forma de expressão de rua, nascida nas periferias ao redor do mundo e popularizada após o emblemático “Abaixo a Ditadura” na década de 1960. Mesmo sendo ilegal, possui uma representação visual que deixa marcas em várias cidades, que gritam por atenção e geram debates entre educadores, jovens, adolescentes e a esfera pública da sociedade.
O piche, segundo Alexandre Barbosa Pereira, doutor em antropologia social pela Universidade Federal de São Paulo (USP), pode ser considerado uma rede social offline porque, com ele, grupos e bairros diferentes se comunicam e criam pontos de encontro, estabelecimento de amizades etc.
Além disso, existe uma diferença: pichação com “ch” pode ser qualquer rabisco feito em propriedades sem autorização. A pixação ou pixo com “x” nomeia a prática feita em São Paulo, que é reconhecida por ter uma “dinâmica social estabelecida há mais de 30 anos, e um estilo de letra específico, que é o tag reto, de formas pontiagudas”, explica Gustavo Lassala, mestre em Educação, Arte e História da Cultura e autor do livro “Pichação Não É Pixação”.
Muros que gritam
Na história, a pixação serviu para propagar críticas à Guerra Fria no muro de Berlim. O artista norte-americano Keith Haring expressava suas posições políticas em giz colorido e deixava clara a ideia de que a arte deve ser acessível, o que inspira a busca pela democratização da arte em muitos jovens ainda nos dias de hoje.
“Eu vejo o pixe como uma forma de arte gratuita. Hoje muita gente pinta as ruas por dinheiro, mas ninguém percebe o quão necessário é para os jovens a abertura de oficinas e espaços públicos para que possamos nos expressar”, explicou a moradora de Laranjeiras, Wari, de 19 anos, que é pixadora há mais de quatro anos.
Bonu de 27 anos é pichador desde a adolescência e atualmente cidadão laranjeirense, falou que a participação de jovens de periferia em espaços públicos sempre foi negada. “A pichação é também um efeito colateral de uma negação pública ao acesso à arte. Ela é uma forma de projetar socialmente uma memória sobre si, mostrar que existe, ainda que não queiram enxergar”, desabafou.
Feio e belo
Um dos maiores nomes da arte urbana americana, Jean-Michel Basquiat, é associado ao grafite e à pintura neoexpressionista, mas seus rabiscos de assinatura SAMO lembram os códigos da pixação. Para ele o feio de um determinado momento histórico pode ser considerado belo mais tarde.
A expressão gráfica como possibilidade de questionamento da vida urbana também faz parte dessa discussão. O grafite e a pixação “estão para o texto assim como o grito está para a voz”, disse o poeta curitibano Paulo Leminski, que usava o spray como faceta da poesia marginal. Na escola, a pichação costuma começar na carteira, no banheiro, nas paredes. “Ali, o jovem sente a primeira repressão”, destaca Mauro Neri, pixador, grafiteiro e ativista.
Assim também seguiu Wari. “Eu comecei pichando um patrimônio destruído na minha cidade natal. Ia lá pintar as paredes para tentar deixar mais bonito. Usava tinta guache escolar, carvão e outras coisas do tipo, mas depois fui atrás dos conceitos iniciais do grafite e do picho, como técnicas de spray e conceitos”.
Autor da expressão urbana “Ver a Cidade”, Neri, fala em ampliar o repertório de arte dos jovens, sem reprimir a ideia da pichação. O diálogo dá chance para a expressão com consentimento e incentiva a ter responsabilidade com o espaço.
A Lei no 12.408 diz que “pichação é crime que prevê pena de três meses a um ano de prisão mais multa”. Se for em monumento ou imóvel tombado, a pena mínima sobre para seis meses.